segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Cantiga de Ninar


querido meu
sonho hoje que flutuaremos contentes
sobre o mar de saudades
até que elas findem sem dor.
depois nos amaremos em memória
e acordaremos repletos
por mantermo-nos de medos livre
por querermo-nos sem pudor

domingo, 9 de setembro de 2012

Luto


 
Nasce morto mais um amor
desabitando a terra de mais um sorriso
não acompanha nenhum cortejo
enquanto desce a ladeira a caixa lacrada
contendo os versos escritos
A despeito do luto,
a vida comum segue seu ritmo
Só a doce florista derrama uma lágrima seca
e no canto do olhar, de longe assiste
Depois se volta para as flores que expõe
enfeitando no largo, o chão de pedras antigas
           O que poderia ser
           se fosse o morto semente?
Do outro lado da montanha
ainda chora o céu da aurora
Aqui velamos os corpos ocos
para fugir da fome dos vivos

E nos fechamos em nossas calmas...
pelas frestas da alma nos despedimos

Nasce morto mais outro amor
morre muda a voz do meu grito


Precisão de amar

Vontade de barco é feita
De âncora
E de mar

Física do amor



Amor
Calor latente
Muda o estado da gente

Cansaço


Ando cansada de mim

cansada dos meus marejados olhos

da tristeza melancólica que envolve meus sonhos

Ando cansada da urgência

de que descende meus atrasos

e da estagnação que os gera

Ando cansada da falta de simplicidade

e das angústias em minha cozinha

e das cortinas da alma

Ando cansada das manhãs

e das noites curtas

e dos papeis grafados

e dos desejos abortados

Ando cansada

Mas sigo

Platonismo


Ele habita as minhas idéias

tem cheiro de juventude

o ideal

O corpo - Magro

moreno

A negra íris amplifica seu brilho pelos cílios alongados

Essencialmente contingente

airoso... alado

sua arte pedrês de linhas onduladas

pende das asas ansiosas

A rabugice é ancestral

seu pai é o mais velho de todos

Os cachos molduravam a boca sedenta

quando a imagem se grafava na minha pele

Pedi que me pintasse de carmim

doce, cedeu

O corte no tempo gentilmente transcorreu lento

e o frio do mundo se aqueceu no seu sopro

Não era um deus - era HOMEM

Não eram poderes, eram truques

Não creio de todo que ele existiu

Mas afirmo :

Hoje...



Ele habita as minhas idéias"


Cantiga


Ah saudade, sê gentil
encurta a distancia entre meu corpo febril
e o colo macio onde minh´alma descansa

Ah saudade, sê generosa
que se a falta é fome
eu tenho pressa
que a fome come
meu canto por dentro

ah saudade frutifica
transcreve em versos
a dor latente
faz das rimas o amor presente

ah saudade, por Deus, finda
que me falta o ar longe do leito
que o sol não basta
não me aquece direito
que eu já não suporto
essa dor no peito


Respeito


Respeitem meus poucos cabelos brancos

são neles que eu conto o tempo

Respeitem meu compasso ralentado

os meus dias não duram o mesmo que os teus

Respeitem a minha voz

ela é a única que me cala por dentro

Respeitem a marca do meu sorriso

e o desenho do meu choro

talhados no rosto antigo

Cada riso anunciou um grito

e cada lagrima germinou meu solo

 Respeitem meu mal-estar

sou prisioneira dele, não convidada

 Dês - respeitem meus versos

e me provem se há outro modo de vida

Carta de Recomendação


Bom, comecemos, desta vez, pelo principio

Façamos uma lista e tracemos paralelos

Quantos anos tem sua alma?

E por quanto tempo precisa morrer para se ressuscitar?

Não, não é inútil. É mister!

Qual o tamanho do pote? Em ouro ou mágoa?

E o tamanho da fome? De vida ou de desfiladeiro?

Há testamento?

Não. Não uso armas brancas. Só roupas

Sou filha da noite e nunca me calo

Tons bemóis ou pastéis?

Ah, claro! Cores... ? azul. Claro. Azul claro

Sim, mantenho lacunas

para que sejam preenchidas

Cartas? De recomendação, de despedida, de amores mortos?

As envia ou guarda?

Quantas são suas estradas?

E teus livros, lidos?

Toma, veste essas lentes:

Terra à vista?

Aporto. E enraízo

Bebe alguma coisa?

Parece que a noite não será tão curta quanto pretendíamos

Mas você não precisa ficar, se não quiser

Eu aceito um café, por favor.

Se pretende dizer algo, melhor agora.

É da ansiedade dos mortos a pressa dos vivos

Prefiro a loucura.

Sua lucidez é também solitária?

Casado? Filhos? Memórias? Medos?

Quantos?

Horas?

...

falta muito para amanhã

morreremos hoje, de certo
 
É, parece que não traçamos muitos pontos em comum
Talvez tenhamos nos enganado
Ou precipitado
Talvez seja melhor pegarmos carona separados
Ou em lados distintos da estrada
Quer que eu lhe arranje um mapa?
Posso anotar, no verso, meu endereço.
Minha memória é tão fraca...
Você pode desenhar seu rosto nesse papel?
Assim não esquecerei de todo.
Saudade é um tempo após a mágoa
Desejo é pressa no ventre da alma.
Se me lembrar, lhe enviarei pelo correio
Só as de alegria, certo?
Se é assim que prefere, talvez demore
Não tem tido a mesma fartura
nas colheitas de ultimamente
Sim, mas tudo vai muito bem,
contentamento é o que menos vende
e o comercio vem enriquecendo a família.
Emergentes pela procura do mercado!
Bom, fatalidades, que as pode conter?
de qualquer modo terá sido um prazer
depois que adormecermos.
Mande recomendações aos teus
diga-lhes que guardo afeto contíguo
E quando nos virmos novamente,
oxalá que não tão breve,
que não nos reconheçamos
para podermos, se for viável,
recomeçarmos o questionamento.

CARNAVAL




Desta vez não haverá luto

É carnaval

Em cinzas culmina Quarta feira

É carnaval

Minha doce mascarada

Despe-te

É carnaval!

Não haverá choro

senão o do bandolim

Não ouviremos guitarras em solo

seremos sós

Não haverá negro senão samba

É carnaval !

Descansemos bruxos

seremos todos feiticeiros

E reinaremos Momos

abrandaremos medos

Seremos livres

Não haverá luto

nem cartas

Não se darão despedidas

Não nascerão urgências

Calma

É carnaval

Desfilemos

contentes

Desfilemos

à parte

Deliremos

pois é chegado

o tempo da fantasia

É carnaval!