sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

É que acontece em mim coisas de cor



Era sábado, chovia um pouco e eu inspirada a ficar em casa vendo um bom filme tomando um belo vinho tinto.
Antes que a noite caísse fui intimada à assistir ao trabalho de um amigo , muito a contra-gosto recebi o cartão de divulgação da peça: “Na casa de Van Gogh - teatro instalação- acesso interno: escada com 17 degraus – tudo o que eu não queria para aquela noite!
Só a definição TEATRO INSTALAÇÃO já instaurava um medo e a repulsa. E ainda 17 degraus! Vou ter que ficar seguindo a cena!-pensei com a preguiça que o tempo criava. Não tive saída e fui, como quem vai a cruz, mas fui.
O espetáculo está em cartaz na “escolinha de Arte do Brasil”, um espaço que não é um teatro, é mesmo uma casa antiga de cômodos pequenos.
Acontece que o diretor Marco Pólo baseou-se em “Cartas a Theo” de Van Gogh para criar o espetáculo cuja a plástica coerente dialoga em harmonia com os fragmentos que formam o texto.
Cada cômodo da casa ficou sendo como uma fase da produção do pintor e, em cada uma delas um ator vivia um Van Gogh e transitavam pelo espaço coexistindo e ecoando as vozes
uns dos outros.
No primeiro cômodo, o quarto de Van Gogh, depois fase azul, vermelha e os girassóis. Os atores com figurinos distintos, maquiagens carregadas e um suspiro, uma falta de ar agonizante comum a todos eles.
Lembrei de uma conversa que tive certa vez com uma psiquiatra que tentava me fazer entender como funciona a mente de um esquizofrênico: - Imagine uma parede feita de várias gavetinhas – disse ela didaticamente – cada uma delas guarda um sentimento, uma reação, uma lembrança, uma ligação com o outro. O esquizofrênico não tem uma linha emocional. Hoje você pode ser a gaveta do carinho, amanha da tortura.
Um tanto dramático no sentido pejorativo do termo, mas era assim mesmo que eu entendi cada cômodo e cada fase do espetáculo. A intimista montagem, o espaço apertado e a locomoção desagradável concordavam com a falta de ar presente em cena.
Ao fim do espetáculo, feliz por ter ido, peguei de novo o cartão de divulgação e me certifiquei do que já imaginava. Não havia no verso nenhum slogan de patrocinador. A peça foi feita “na garra”. Entendi que é possível fazer coisas muito complexas com pouquíssimos recursos posto que antes de me surpreender com o espetáculo acreditava ser, somente pela grandiosidade estrutural, a forma de fazer dialogar as artes coerentemente.

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