Tive, no mês de maio deste ano, a oportunidade de ir a Ouro Preto onde acontecia a Semana de Artes – festival organizado pela Multicultural empresa Junior de Artes cênicas do Departamento de Artes da Universidade Federal de Ouro Preto UFOP.
A semana já vem, há alguns anos, levando à comunidade os trabalhos dos alunos através do MOMU (festival de monólogos e musica original) e do Mesquete (mostra de esquetes). Neste ano, a organização deu um grande passo criando a concomitante Miscelânea, espaço para a troca de produções entre a universidades e não acadêmicos.
Pois no curto tempo em que estive lá o espetáculo que realmente me chamou a atenção era, coincidentemente composto por dois atores/ alunos da escola d teatro da UNIRIO.
O grupo “É só esse espetáculo” apresentou o texto Nepal do autor Péricles Anarcos.
Trata dos dois únicos sobreviventes ao fim do mundo após a vinda do “grande Potraça” que voltará em dois dias para a finalização da obra.
Então temos em cena um peregrino em busca de água e um ermitão sentado em lótus sobre uma pedra alta, afirmando ser o dono da única nascente que resistiu. Temos dois genéricos de Vladmir e Estragon e o absurdo beckettiano presente, mesmo que incompleto.
Péricles alcança no texto a fragmentação do sentido nos dando o onde, o quê e o quando, tudo muito bem descrito e ao mesmo tempo tão ausente.
Em cena vê-se apenas aqueles dois seres(com suas maquiagens carregadas) e a pedra. O alto do Nepal é o fim do mundo.
Assim como estão Clov e Hamm no interior de uma casa em fim de partida, estão também em lugar algum, composto pela ausência de elementos cênicos. Gilles Pétel descreve em “Das Palavras e das Lágrimas” os lugares beckettianos:
“eles possuem todos um coeficiente de realidade frágil. É portanto a dialética imaginária do aqui e do alhures que Beckett destruiu, colocando suas personagens em lugares inusitáveis, porque indefinidos, e dos quais não se pode portanto escapar porque não há nenhum outro”[1]
Péricles não inventa nada. Os diálogos rápidos de Vladmir e Estragon: “as personagens de Beckett sã, em grande parte, falantes compulsivos. Falam de si para si mesmas”[2]estão presentes em Nepal. Tanto quanto a alternância de poder entre as personagens.
Não há mutilação física dos mesmos. A contra-ponto o resto do mundo foi dizimado (salvo as baratas que a certa altura da peça sabe-se que se organizam para partir em busca da tomada do poder)
Assistir ao absurdo nessa montagem foi, sem sombra de duvida, o ponto alto do festival. E o que me faz constatar quão contundente é, ainda hoje (e talvez cada dia mais) embebermo-nos no absurdo beckettiano.
O homem contemporâneo é composto dessa fragmentação absurda, apitando e avisando mais um download completo. Falando de si para si virtualmente onde o interlocutor é tão ausente quanto a comunicação é efetiva.
Que venham os filhos de Beckett pois só mesmo o absurdo alcança a verossimilhança em representar a vida.
Bibliografia:
Cavalcanti, Isabel: Eu que não estou aí onde estou; Rio de Janeiro, 7Letras, 2006
[1] Citado em Isabel Cavalcanti, 2006 pag 44
[1] Cavalcanti, 2006, pág 60
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