sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Sempre gostei muito de teatro...


Em pleno domingo de sol, continuava eu, enfurnada sobre a mesa e os livros; encurralada pelas obrigações acadêmicas. Assim mesmo, sem prazer ou qualquer tipo de empatia foi que me deparei com uma das frases mais intrigantes de minhas descobertas recentes:

       “Sempre gostei muito de teatro e, no entanto, quase já não o freqüento”

       Percebi então uma das marcas registradas de Roland Barthes: ali eu já queria ler o texto, entender o que aconteceu, porque ele teria dito isso no maio de 1965, de quando é datado o ensaio. Barthes me SEDUZIU. A dialética; a tese e antítese da afirmativa mereciam, em mim, uma explicação.

Seguindo o ensaio, descubro que se trata do “ofuscamento brechtiano” que alcançou Barthes cortando nele “o gosto por qualquer teatro imperfeito”[1] e desde então ele deixou de ir ao teatro.

Relata o autor, que a experiência teve caráter tão radical que não tinha mais como diferenciar, em grau, Brecht do resto do teatro. Era uma diferença de natureza. Instaurava-se o brechtismo como uma cultura verdadeira, uma dramaturgia no cruzamento de um pensamento político cm um pensamento “semântico”. Um fazer teatral que não tivesse o caráter político, a estrutura de cirúrgico dos signos e ainda causasse prazer, como teria feito Brecht  para Barthes, não valeria a penas mais ser visto.

            Continuei o passeio pelas paginas de “Escritos de Teatro”, essa compilação feita por Jean-Loup Riviere e parei em “Sete fotos-modelo de Mãe Coragem” (1959) onde o autor explica, à partir do detalhe, o distanciamento de Brecht.

Na segunda apresentação de Mãe Coragem feita em Paris em 1957, Roger Pic fez um ensaio fotográfico de cerca de 100 fotos.

Para Barthes a foto explicita o detalhe; o detalhe a significação, e o teatro de Brecht é um teatro de significação.

A significação, o sentido é o ponto de apoio para o distanciamento de Brecht e conclui: distanciar “...é, para o ator, significar a peça, e não mais a si mesmo na peça”[2].

Fechei o livro tentando encontrar o algo que me faz, ainda, ir ao teatro. Que caminho inverso cria em mim a esperança de ver algo em cena que me arrebate como Barthes foi arrebatado.

Nessa complexidade do contemporâneo, nessa pluralidade de “produtos” que se apertam nas prateleiras do Segundo Caderno.

Talvez seja improvável que algo surja com tamanha grandeza a ponto de saciar minha sede. Mas me mantenho firme, e em busca. Até porque sempre gostei muito de teatro, mesmo sem ver coisas realmente boas com freqüência.



Bibliografia:

Barthes, Roland: Escritos sobre teatro. São Paulo. Editora Martins Fontes, 2007



[1] Barthes, Roland: Escritos Sobre teatro, pág 4
[2] Idem pág 241







[1] Citado em Isabel Cavalcanti, 2006 pag 44

[1] Cavalcanti, 2006, pág 60



[1] Citado em Isabel Cavalcanti, 2006 pag 44
[2] Cavalcanti, 2006, pág 60

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